Os sete loucos (traducción de una novela de Roberto Arlt)

Como lo anunciamos días atrás, milinviernos estará presentando los avances de la traducción  al portugués que Barbara Lopes hace a los “Siete locos” de Roberto Arlt. Los dejamos con el segundo episodio y, si quieren leer el anterior, hagan click acá

 

Estados de consciência

 

Sabia que era um ladrão, mas essa categoria pouco lhe interessava. Talvez a palavra ladrão não estivesse de acordo com sua consciência. Havia outro sentimento e era um silêncio circular que entrava como um cilindro de aço em seu crânio, de tal maneira que silenciava tudo o que não se referisse ao seu pesar.

Este círculo de silêncio e trevas impedia que suas idéias continuassem, tanto que Endorsain não conseguia raciocinar e conceber a mudança: seu lar se encontraria atrás das grades.

Seu pensamento telegráfico cortava as preposições, isso era irritante. Houve momentos sem nada para fazer que poderia ter cometido delitos de qualquer natureza, sem que para isso se sentisse responsabilizado. Claro, um juiz jamais entenderia esse fenômeno… Mas ele estava vazio: uma carcaça de homem movido a hábitos.

Não continuou trabalhando na Companhia Açucareira para roubar mais dinheiro, mas sim porque esperava um acontecimento extraordinário – tremendamente extraordinário – que desse uma reviravolta na sua vida e o salvasse da catástrofe que se aproximava.

Zona de angustia, assim denominava Endorsain essa atmosfera de sonho e inquietude que o fazia dar voltas nos dias como um sonâmbulo. Imaginava que essa zona estava no mesmo plano da cidade, a dois metros de altura, e sua representação física se aproximava a regiões de salinas ou desertos, que nos mapas parecem pontos ovais com a espessura de ovas de arenque.

Esta zona de angústia era consequência do sofrimento humano. E como uma nuvem de gás venenoso movia-se, pesada, de um lado para o outro, penetrando muros e atravessando os edifícios, sem perder sua forma plana e horizontal. Angústia de duas dimensões que guilhotinava gargantas e as deixava com forte gosto de soluço.

Enquanto dava-se esta explicação, sentiu as primeiras pontadas e náuseas de sua pena.

– O que estou fazendo da minha vida? Perguntava-se, querendo talvez esclarecer com esta pergunta a origem de sua ansiedade. Desejava que o amanhã não fosse a continuação de hoje com seu tempo calculado, mas, sim, algo diferente e sempre inesperado, com a desenvoltura dos filmes norte-americanos, onde o mendigo de ontem é o chefe de uma sociedade secreta de hoje e a datilógrafa aventureira, uma multimilionária incógnita.

Esta necessidade de maravilhas sem a menor possibilidade de satisfazê-las – já que era um inventor fracassado e um delinquente a beira do cárcere – deixava suas reflexões futuras ácidas e seus dentes sensíveis, como se tivesse comido um limão.

Nestas circunstacias conciliava insensatez. Chegou a imaginar que os ricos, de saco cheio de escutar as queixas dos miseráveis, construíram carrocinhas conduzidas por cavalos e homens; escolhidos pela sua forca, lançavam aos pobres correntes como as de cachorro. Imaginava esta cena: uma mãe, alta e descabelada, corria atrás da carrocinha onde seu filho, caolho, a chamava entre as grades, até que um funcionário, cansado de ouvi-la gritar, golpeava sua cabeça e a deixava inconsciente.

Desfeito este pensamento, Endorsain dizia, horrorizado de si mesmo:

– Que alma a minha!

E como conservava o impulso motor impresso nesse pensamento, continuava:

– eu deveria ser um lacaio, desses perfumados, vis, para quem as prostitutas ricas pedem para fechar o sutiã enquanto o amante fuma um cigarro sentado no sofá.

De repente voltava-se para o porão, onde estava localizada a cozinha de uma luxuosa mansão. As empregadas ao redor da mesa, o motorista e um sujeito árabe, vendedor de perfumes. Ele, nesta circunstancia, usaria um casaco que não chegava ao seu traseiro e uma gravatinha branca. Logo se ouvia “senhor”, era um homem que tinha o dobro do seu tamanho, bigode e óculos que o chamava. Ele não sabia o que este homem queria de seu patrão, mas nunca se esqueceria da olhada particular que dirigia a ele ao sair do cômodo. Depois voltava à cozinha para conversar sobre obscenidades com o motorista – para o delírio das empregadas e silêncio do árabe pederasta – que contava de como havia pervertido uma menina de pouca idade, filha de uma respeitosa senhora.

E dizia-se outra vez:

– Sim, sou um lacaio. Tenho a alma de um verdadeiro lacaio. – gostava de rebaixar-se, esse insulto o satisfazia.

Outras vezes, saindo do quarto de uma velha solteirona, carregando com devoção um penico; no caminho encontraria-se com um sacerdote que, imóvel, sorria e perguntava:

– Como andam os estudos religiosos, Endorsain?

E ele, Ernesto, Ambrósio ou José, perturbado, viveria uma vida de criado obsceno e hipócrita.

Um temor à loucura o estremecia quando parava para pensar.

Sabia (e como sabia!) que estava ofendendo gratuitamente sua alma. Sofre ao pensar no terror que experimenta o homem quando, no meio de um pesadelo, cai num abismo, mas afunda-se deliberadamente na lama e sabe que nunca morrerá. Isso porque a cada instante seu afã era de humilhação – como os santos que beijam as chagas dos imundos, não por compaixão, mas sim para serem menos merecedores da piedade divina, pois Deus sentiria asco ao vê-los buscar o céu com provas tão repugnantes.

Mas quando desfazia-se essa imagem e ficava apenas com o desejo de conhecer o sentido da vida, dizia:

– Não, eu não sou um lacaio… é sério, não sou. E gostaria de pedir a sua esposa que tivesse piedade dele e compaixão pelos seus pensamentos baixos e horríveis. No entanto, quando lembrava que por ela já havia se sacrificado tanto ficava possuído de raiva e sentia vontade de matá-la. Bom, sem contar que sabia que um dia ela se entregaria a outro homem e isso se assomava aos demais fatores que compunham sua angustia.

Quando roubou os primeiros vinte pesos, ficou espantado com a facilidade com que se podia fazer “isso”, talvez porque antes acreditava que deveria passar por cima de escrúpulos – escrúpulos que, no momento atual da vida, não tinha conhecimento. Então, dizia:

– É questão de sentir vontade e agir, nada mais.

E “isso” aliviava a vida. Com “isso” tinha um dinheiro que lhe causava sensações estranhas, pois na custava nada ganha-lo.

Endorsain não se espantava com o roubo em si, mas sim com seu semblante que não parecia ao de um ladrão. Viu-se obrigado a roubar porque seu salário era escasso. Oitenta, cem, cento e vinte pesos… o importe dependia do valor a ser cobrado, já que seu salário era a comissão por nada cento cobrado.

Às vezes, em sua carteira de fundo falso, tinha mais de cinco mil pesos e ele, mal alimentado, sentia-se carregando a felicidade em forma de notas, cheques e ordens de pagamento. Sua esposa o recriminava pelas privações que ela sofria todos os dias; ele a escutava em silencio e depois, sozinho, se perguntava:

– O que posso fazer?

Quando teve a ideia, quando surgiu o pensamento de que poderias roubar seus patrões, sentiu a alegria de um inventor. Roubar? Como não pensei nisso antes?

Endorsain se assustou com sua incapacidade e chegou a reprovar sua falta de iniciativa, pois nesta época (três meses antes dos acontecimentos narrados), sofria necessidades de toda natureza – apesar de sempre carregar tanto dinheiro em sua carteira.

O que colaborou com suas estratégias fraudulentas foi a má administração da Companhia Açucareira.

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